Sábado, 26 de Janeiro de 2008

Um deus desconhecido

“Na região de Cás, pequena cidade próxima de Ur, a cidade dos caldeus, havia um homem muito corajoso chamado Naor. Ele era um tocador de lira muito querido e respeitado entre os habitantes de Cás. Essa admiração da parte do povo por Naor não nasceu apenas por ele ser o mais hábil tocador de lira de Cás, mas por causa de um grande feito heróico realizado por Naor que mudou completamente a história daquelas pessoas. Anos antes o povoado de Cás não existia, todos moravam em Ur e tinham um rei que os regia tiranamente, o rei Serugue era pai de Naor que nessa época era muito jovem. Serugue era perverso e explorava toda a riqueza daquela cidade para benefício próprio, sempre cobrando altos impostos e tomando à força fazendas e animais do povo. Naor conseguiu convencer todo o povo a se rebelar contra seu pai e lutar contra seu poderoso exército. A luta durou vinte anos. Morreram muitos que estavam com Naor e o exército do rei foi enfraquecido. A cidade de Ur ficou completamente destruída. Não sobrou portanto nenhuma fazenda, nenhum despojo para os vencedores. Acreditava-se então que a terra de Ur teria sido amaldiçoada por seus deuses que derramaram sua ira diante de tantas guerras e por ver tão grande ódio entre pai e filho. Naor esteve frente a frente com seu pai. Teve oportunidade de matá-lo, mas resolveu fazer-lhe um bem lhe poupando a vida, ainda que Serugue fosse tão perverso e tirano. Teria então reunido todo o povo e partido para uma região próxima deixando seu pai já velho e doente, trancafiado com alguns soldados dentro do velho palácio. Nesta outra região iniciaram a construção de uma nova cidade que se tornara a pequena, embora muito promissora cidade de Cás.
Desenvolveram a cultura das liras. Entortavam galhos verdes e prendiam a estes galhos fios preparados pelas tecelãs, fios grossos e finos que amarrados em ordem de espessura emitiam um som harmonioso. O instrumento era tocado nos festejos do povo por Naor e seus discípulos, que contavam através da música a história da destruição da cidade de Ur e o nascimento da cidade de Cás. O povo de Cás também preservou o culto aos deuses, eram centenas deles que numa seqüência de datas durante o ano eram cultuados e celebrados em grandes e pequenos festejos daquele povo tão alegre.



Mas um dia Cás foi tomada de súbito por uma notícia muito triste: o pequeno Terá foi mordido por um basilisco. O curandeiro de Cás disse para Naor que em poucas horas o menino morreria, a menos que o ancião mais antigo da família com as mãos ensopadas com óleo de oliveiras, impusesse as mãos sobre o ferimento do menino e diante dos deuses de Cás cedesse sua vida ao garoto. Naor subiu ao campo das oliveiras, espremeu as azeitonas e ensopou as mãos, segurando então no ferimento do filho fez todo o ritual, mas nada adiantou. O curandeiro disse para Naor que certamente o rei Serugue ainda estava vivo e que mesmo estando morto, Naor era ainda muito jovem para que o feitiço funcionasse. Naor desesperado montou em seu cavalo e partiram velozmente em direção à antiga Ur dos caldeus. Chegou ao velho castelo, mas este se encontrava vazio, os soldados já mortos e nenhum sinal de seu pai Serugue. Naor voltou triste e desesperado, pois certamente o seu filho Terá estava morto, já que o dia terminava.Não tinha idéia de onde seu velho pai se encontrava nem sabia se estava morto. Onde estaria Serugue? Que fim teria levado o rei tirano que por pouco não morrera ao fio da espada do próprio filho se este não lhe tivesse feito um bem? Antes eu tivesse o matado, pensava Naor.
Aproximando-se de Cás, Naor ouviu um alarido de festa. Acelerou o galope de seu cavalo e viu que o povo de Cás celebrava com grande barulho. Muitas liras eram tocadas ao mesmo tempo e havia também muitos gritos e uivos entre o povo de Cás. Chegando ao meio da grande multidão pôde ver o próprio filho nos braços do curandeiro. O pequeno Terá sorriu para o pai e disse: - Um velhinho entrou nos meus aposentos e com as mãos molhadas de óleo das oliveiras pôs a mão em mim, fez uma oração e disse que me dava a vida dele diante do deus desconhecido, pois um dia seu filho havia a poupado. Depois caiu no chão. Antes de morrer ele me disse que ainda amava muito seu filho. Disse que gostaria de ter visto novamente o filho para que este o perdoasse por todas as maldades que tinha feito. Naor entrou nos aposentos do filho e viu o corpo de seu velho pai Serugue estendido no chão. Chorou sua morte dolorosamente, depois abraçou seu filho Terá durante um longo tempo quase que não acreditando no que tinha acontecido. Os anos se passaram e o agora rei Naor tomou uma decisão muito importante. Voltaram para Ur dos Caldeus, reconstruíram a cidade e Naor ficou velho e também morreu, sua morte foi chorada e ao mesmo tempo celebrada com o toque das liras e cantos que contavam sua história e faziam reverência ao deus desconhecido. Terá então reinou sobre Ur. Foi um rei justo e bondoso. Casou-se e conheceu uma linda mulher de um outro povo que habitava próximo a Ur. Tiveram três filhos. Os chamaram de Naor, Harã e Abrão. Esta é a história da cidade de Ur dos Caldeus, a cidade da grande guerra, do deus desconhecido, dos alegres festejos e das liras”. Franklin arrancou aplausos empolgantes da primeira turma de alfabetização para adultos da escola da ladeira após a leitura do conto: Um Deus desconhecido, de sua própria autoria.

Se for por falta de adeus...

Ezequiel tinha um amigo. Para ele um amigo de verdade, um companheiro para todas as horas. Maurinho nunca deixava Ezequiel na mão. Qualquer aperto, lá estava Maurinho, pronto para ajudar. Pronto para tirar o amigo Ezequiel do fundo do poço. Não somente no que se relacionava dinheiro, tudo mesmo. Se Ezequiel precisava de um ombro amigo, lá estava Maurinho. Se precisasse de algo emprestado, lá estava Maurinho. Qualquer coisa, não importava o preço, nem a hora, nem o lugar e nem muito menos o grau de perigo. Era o Ezequiel quem precisava? Maurinho fazia questão de resolver.
Antes o Ezequiel vivia muito bem. Seus pais tinham tudo. O velho tinha um bom salário e sustentava os filhos quase que a pão- de- ló. Mas o tempo das vacas magras chegou de supetão. O pai de Ezequiel perdeu tudo. Perdeu dinheiro, a casa, o respeito dos filhos e a alegria de viver. Ezequiel caiu na real e viu que tinha que ir para o batente. Começou cedo. Empregou-se no balcão da padaria de Seu Alfredo. Tinha mais oito irmãos e todos tiveram que trabalhar duro. Cada um tirava uma parte do salário para pagar o aluguel de uma casa para os pais. Ezequiel sempre contribuía com a maior parte, a outra parte guardava numa latinha de leite que arrancara o rótulo e pusera debaixo da cama. Não comprava nada para si, andando com chinelos velhos, camisa desbotada, uma antiga bermuda e um boné bem castigado. Seu Alfredo admirava sua força de vontade em poupar e passou a presentear-lhe com roupas. Curiosamente Ezequiel não a usava. Ia sempre com a mesma roupa para o trabalho. Seu Alfredo não gostava muito de nunca vê-lo com as roupas novas, mas dava umas boas risadas de Ezequiel e dizia: -“Garoto, o que você está tramando hein”? – Nada seu Alfredo. – mas esse era o jeito de ser de Ezequiel.
O tempo foi passando e uma outra roupa foi adotada como farda pelo garoto. A antiga estava sem condições de uso. Continuou ganhando roupas e poupando dinheiro dentro da lata.
Todos os dias, no final do expediente, aparecia no canto direito do balcão, um rapaz de cabelos negros escorridos e bem cheiroso. Um jovem rapaz bem bonito, filho de um metalúrgico que ganhava muito bem. O nome do jovem? Maurinho. Era como aquele belo rapaz era conhecido no bairro. Maurinho era um amigo inseparável de Ezequiel, sempre o esperava sair do expediente para conversarem.


-“O que você está precisando”?
-“Nada Maurinho, esquece”.
-“De maneira nenhuma”. – Maurinho entregava-lhe um maço de dinheiros, e apesar da insistência de Ezequiel em não aceitar, o esperto Maurinho encontrava uma maneira de convencê-lo.
Ezequiel gostava muito dele, mas tinha algo em Maurinho que incomodava profundamente ao Ezequiel, ele era ciumento e controlador. Ezequiel não poderia ter outro amigo que logo Maurinho fazia-lhe uma longa entrevista. Se Ezequiel pensasse em fazer um passeio sem convidar Maurinho, o amigo ciumento ficava uma semana com a cara emburrada e de poucos amigos. Era um amigo fiel, mas tirado a sabichão. Gostava de contar vantagens e por ser um pouco mais velho que Ezequiel não aceitava saber menos sobre um assunto do que o amigo mais novo.
Desde criança foi assim. Ezequiel não podia dar um passo sem a aprovação e consentimento de Maurinho. Ezequiel sentia-se demasiadamente constrangido em não seguir as regras de Maurinho, também, ele bancava tudo. Fazia questão. Na verdade, não existia mais Ezequiel sem Maurinho. Aquela situação estava ficando desconfortável, Ezequiel sentia-se sufocado com aquela relação. Passou a ter até mesmo pesadelos. Sonhou com monstros que tinham o rosto de Maurinho. Sendo mordido por um cachorro com a cara do Maurinho. Até mesmo com um desfile de escola de samba onde todos os integrantes usavam a máscara do Maurinho. Quando acordava para ir trabalhar, lá estava o Maurinho para acompanhá-lo. No final do expediente, olha ele de novo. Quando estava em casa ele ligava. De domingo a domingo. Maurinho, Maurinho e um pouco mais de Maurinho.
Um dia Ezequiel chegou da padaria e assentou-se na poltrona da sala. A mãe fazia tricô com os óculos na ponta do nariz, nem se quer levantou o olhar para cumprimentar o filho cansado, os irmãos ainda não tinham chegado e o pai adormecera assistindo ao jornal. Olhou por alguns instantes para aquele quadro familiar que o incomodava. Levantou e foi para o quarto. Lá, deitou-se e dormiu quando cansou de olhar para o teto escuro.







Pela manhã, dona Isaura, mãe de Ezequiel, saiu para varrer o quintal quando se deparou com o Maurinho no portão. –“O Ezequiel já foi”. –“Tão cedo”? – retrucou Maurinho, mas mesmo espantado resolveu conferir indo até a padaria. Chegando lá, seu Alfredo o surpreendeu ainda mais com uma declaração inesperada: -“Ele pediu demissão ontem, me agradeceu por tudo e disse que iria viajar”. – Maurinho quase teve um troço. Correu desesperado de volta para casa, Ezequiel não estava lá. Contou para a mãe de Ezequiel o ocorrido, mas ela não deu muito crédito, Maurinho entrou em crise. Ficou vermelho como um pimentão, com muita raiva mesmo. Pediu licença à mãe de Ezequiel e foi até o quarto do amigo, encontrou duas peças de roupas velhas e uma latinha vazia. Falou quase que gritando: - Fugiu. – correu em disparada para a rodoviária que ficava próxima ao cemitério da pracinha, em poucos minutos chegou a tempo de ver o Ezequiel pela janela de um ônibus em movimento. Ele partiu. Para sempre. Nunca mais Maurinho. Ezequiel se levantou e olhou pela janela e viu o amigo, um filme passou na sua cabeça. Respirou profundamente, sentou-se de novo em sua poltrona, abraçou uma mochila cheia de roupas novas e sorriu, sorriu que nada, gargalhou de tanta felicidade e disse: - Adeus Maurinho. Depois adormeceu. Na verdade, dormiu sorrindo.

Vinte Minutos

Vinte minutos! Você só tem vinte minutos! – ele acordou assustado. Que bom que foi apenas um sonho, para ser mais preciso um terrível pesadelo. O humilde dono de padaria respirou fundo, tivera um pesadelo, é bem verdade, mas muito emocionante. Achava que sua vida não tinha graça, compensava sua insatisfação compartilhando os pesadelos e sonhos com a esposa e seus funcionários na padaria. Trabalho que ele odiava. Alfredo acordou encharcado de suor, trêmulo, tentava com dificuldades lembrar-se do pesadelo que tivera, por enquanto só lembrava da frase, ela resultou em um grande susto, que o despertou. Levantou-se da cama e caminhou até a geladeira. Ao abrir a geladeira sua mente deu um clique. Sentindo o frio que saia dali, lembrou mais uma cena do tal pesadelo: Caminhava sozinho pelas ruas da cidade, era tarde da noite e estava muito frio, lembrou-se também de um detalhe importante, estava completamente nu. Sentia-se bem à vontade, agora parecia um inocente sonho. Esperem, esqueceu tudo de novo. Bebeu a água e voltou para a cama. Cinco minutos intermináveis olhando para o teto. O reflexo do clarão da lua misturado com a escuridão do quarto ajudava-o a contar os sulcos do forro em pvc de seu apartamento. Olhando para o teto lembrou-se da cena agonizante. Agora estava dentro de um caixão, faltava-lhe ar e batia desesperadamente na tampa, na esperança de alguém salvá-lo. Foi inútil, Alfredo morreu. Viu seu espírito sair do corpo, já estava fora do caixão. Esqueceu tudo de novo.
Que sonho perturbador. Sentou na beira da cama por alguns instantes. Levantou-se e pôs-se a caminhar de um lado para o outro. Observava os objetos espalhados pelo quarto, quem sabe lembraria mais uma cena. Nada vezes nada. Foi até a janela e a abriu. Agora sentia calor e se debruçou a observar a rua escura. Era muito cedo, ainda não havia sol e nem pessoas transitando. O apartamento ficava no terceiro e último andar, uma visão ampla de todo o bairro, salvo uma enorme escola que ficava em frente ao prédio no ponto mais alto da ladeira. Paralisado, olhava para as janelas daquela escola, por sinal eram enormes. Parecia um presídio de tão protegida. Muitos portões, guaritas e muros altos.





Olhou para o pátio e notou que um dos portões estava aberto, aquele local não parecia mais tão seguro. Sentiu um arrepio ao ver um mendigo no meio do pátio da escola. Um homem em trapos, com barba grande e grisalha. Cabelos sujos e arrepiados e um semblante assustador. Alfredo foi acometido de um tenebroso calafrio na espinha ao perceber que aquele homem o olhava fixamente. Saiu da janela rapidamente. Mesmo assustado, sorrindo de canto de boca, lembrou-se de mais uma cena: Ainda estava nu, agora diante de um muito alto, tinha uma barba branca e grande, roupas longas e alvas, na mão direita um livro dourado e na esquerda uma linda caneta prateada. Alfredo pensou: - Será que estou diante de Deus? – aquela figura exótica, olhou nos olhos de Alfredo fez a intrigante afirmação: “- Você só tem vinte minutos! – desesperado Alfredo indagou: “- Vinte minutos de que? – respondeu o homem de longa barba: - De vida.
O corpo de Alfredo quase congelou. Observou tudo ao redor, viu que se encontrava no cemitério central da cidade. Voltou seu olhar para o homem de branco, mas não o encontrou, havia desaparecido repentinamente. Ainda tentando se recobrar da notícia assombrosa ouviu um brado como de trovão, a voz era tão forte que fez estremecer túmulos, portões e o coração de Alfredo: - Você só tem quinze minutos! – era o fim, dentro de instantes provavelmente a voz anunciaria os dez minutos restantes. O que fazer numa situação como esta. Sentiu que alguém se aproximava por detrás. Puseram a mão pesada em seu ombro dizendo: - Eu tenho a resposta que você precisa.
Lá estava ele, sentado na cama suando como uma chaleira. Uma mistura de calor com um frio que quase o levava ao desfalecimento. Esqueceu do resto daquele pesadelo interminável. Num impulso saltou da cama, cobriu-se superficialmente sua nudez com um lençol, abriu a porta e desceu as escadas. Três andares de desespero. Em segundos já estava na rua principal, correndo como um cão sem rumo. Pensamentos terríveis dominavam sua mente: - Por que isso agora? O que estou fazendo, pode ser apenas um pesadelo sem explicação. Mas não posso arriscar. Deve ser um sinal dos céus. Se tiver somente esse tempo para viver, deveria resolver algumas questões, pedir perdão para algumas pessoas, fazer uma boa ação ou, quem sabe uma última oração. Deus me perdoará por tantos pecados.




Alfredo corria em direção ao pequeno cemitério que ficava na pracinha do bairro, passou velozmente pelo portão curiosamente aberto. A ponta do lençol prendera no ferrolho deixando o pobre homem completamente nu. Avistou um homem debaixo de uma árvore, estava de costas e não percebeu que Alfredo aproximava-se. Alfredo parou próximo do homem misterioso e gritou: - Deus, fale-me a resposta. – foi surpreendido por um golpe desferido pelo homem que acertou Alfredo no meio dos córneos com uma pá. Tratava-se do coveiro que se encontrava abrindo uma nova cova. O pobre homem saiu em disparada aos berros de tanto pavor. Enquanto isso, depois de ser lançado dentro da cova com o impacto que recebera nas fuças, Alfredo abriu os olhos tentando recobrar os sentidos. Lembrou que já havia visto cena semelhante no seu pesadelo. Procurou ficar calmo e respirou de forma compassada. Nada disso adiantava agora, Alfredo estava morto.
Em espírito saiu de dentro da cova funda. Havia um intenso nevoeiro. Uma forma de homem aproximava-se em meio a penumbra. Alfredo apertava os olhos para tentar discernir a figura, quando foi surpreendido por uma mão pesada que sacudia seu ombro. Tudo estava nublado impossibilitando Alfredo de ver quem era, percebeu apenas que era a mão de uma mulher. Ouviu novamente uma voz que agora dizia: - Acorda Alfredo, que homem difícil de despertar. Há vinte minutos que tento acordá-lo, sinto informar que você se atrasou de novo, quem vende pão sempre acorda cedo Alfredo. – olhos abertos e decepcionados. O padeiro percebeu que estava realmente acordado. Olhou para o relógio e constatou o ocorrido. Amanhecera. Levantou-se e foi até a janela. Olhou para rua, avistou a escola e ao longe o cemitério. Levantou seu olhar para o céu e disse: - Deus. Dê-me outro pesadelo. – tomou um banho e saiu para vender pão.

Sapo Gordo - 2º colocado no Concurso Internacional de Contos em Portugal: Ora Vejamos...2007

Robertinho chegou eufórico. Menino esguio, oito anos, sardento e ruivo, foi apelidado por um tio de muito mau gosto por ferrugem. A família do menino ferrugem nem se quer deu bola. O garoto estava paralisado no meio da sala portando uma grande caixa de sapatos. Ninguém se moveu. Todos hipnotizados diante dos últimos capítulos da novela das oito. Na tela havia intrigas e tramas, peripécias e desfechos escandalosos, mas do lado de fora só havia a inércia. Peço ao leitor que pare de ler durante dez segundos fixando o olhar para a palma de sua mão. Agora você já pode imaginar como a família de Robertinho se encontrava diante da TV. O avô viúvo soltava gases e ninguém percebia, embora, ele também estivesse concentrado na telinha, a mãe já lacrimejava os olhos, pois sua novela preferida estava terminando. O pai dava uma de diretor, ou seja, sugerindo alguns finais alternativos, daqueles que acham sempre que suas idéias são as melhores e todo o resto é bobagem. Ninguém sentia o mau cheiro dos gases do vovô, ninguém percebeu que a mãe, dona Jandira se desfalecia em lágrimas, e ninguém deu a mínima para os palpites do pai noveleiro.
Robertinho estica o bracinho que segurava a caixa de sapato e diz: - Olha o que eu achei! – ainda olhando fixamente para a TV o pai questiona o garoto: - Achou o que, droga? – Um sapo! – respondeu Robertinho. Sem êxito na tentativa de conseguir a atenção dos familiares ausentou-se da sala de hipnose. Pôs a caixa de sapato com o achado em cima da mesa da cozinha. Abriu a porta e seguiu em direção ao apartamento da vizinha. Já era noite e por debaixo da porta o garoto viu que as luzes do ap da vizinha estavam apagadas, mas espere. Dava para ver uma luz brilhante e oscilante que iluminava a fresta da porta. Tomou coragem e bateu na porta. Demorou, mas dona Lúcia, esposa do padeiro do bairro, atendeu: - Olá meu bem, o que é? Fala rápido. – É que eu achei um sapo, um grande sapo gordo e cabeludo e preciso mostrá-lo para alguém. – dona Lúcia parou um instante, pensou e repensou aquela frase, e em meio a sonoras gargalhadas disse ao rapazinho: - Sua família sempre foi meio esquisita. Agora vai para sua casa que eu estou ocupada. – fechou a porta frente ao garoto, entrou e aumentou o volume. Robertinho respirou enfezadamente e disse para si mesmo: - Será que todo mundo está assistindo o diabo dessa novela?


Ele desceu as escadas e chegou ao térreo, nunca tinha feito isso sozinho. Estava assustado e caminhava como uma bailarina. Aproximou-se da recepção do prédio e bateu vagarosamente no vidro chamando a atenção de Rui, o vigilante. – É o que ferrugem? – Rui, Achei um bichinho. Guardei em cima da mesa. Acho que é um sapo. – Rui se inclinou em direção ao garoto, quase que unindo as duas sobrancelhas tentando entender aquela afirmação. Quando parecia que Robertinho havia encontrado alguém que lhe daria atenção ouviu-se um choro de mulher. Rui arregalou os olhos e disse: - É agora Ferrugem, espera aí. – Rui voltou para a guarita da recepção na esperança de ver em tempo o desenrolar da trama daquela novela tão intrigante.
Robertinho balançou a cabeça fazendo um sinal negativo. Sem que o irresponsável vigilante pudesse perceber o garoto saiu do prédio e atravessou em direção à pracinha, que de forma inédita estava quase que vazia naquela noite. Sentou-se entristecido em um dos banquinhos. Ao seu lado havia um velho homem lendo uma revista. Roberto chamou a atenção daquele senhor que se inclinou com dificuldades para o lado e foi logo o interrogando: - O que há garotinho? – Robertinho respondeu: – O senhor não vai ver o final da novela? – Não, eu não gosto de novela. Mas me fale porque tanto aborrecimento. – Ninguém presta atenção em mim. Eu achei um enorme sapo numa caixa de sapatos, ele é gorducho e cabeludo. – O velho riu, mas não tirou a atenção um instante do garoto: - continuou o Robertinho: - Ninguém nem me olha. O que eu faço para eles me ouvirem? – o velho mudou o semblante e entristeceu-se. Olhou para o alto do prédio, depois para as raras pessoas que ainda passeavam pela praça e disse com pesar: - Desista garoto, eles não vão prestar atenção. Jogue o sapo fora.
Robertinho deu-se por vencido e voltou ao apartamento. Nem o Rui, nem a família ainda o notara. Prontamente sentou-se ao sofá e se rendeu a empolgante trama. Adormeceu entediado, mas em meio ao brilho ofuscante e oscilante da cena final algo chamou subitamente sua atenção. Era o nascimento de uma criança. O médico segurava um bebê pelos pés. A cena paralisou e aparecia a palavrinha fim. Um sentimento de alívio se instalou no rosto do avô, do pai e da mãe, enquanto que Robertinho arregalou os olhos e disse: - Olha gente, o homem da novela também achou um sapo! – no seu rosto via-se um sorriso maroto, de repente conseguira a atenção de todos de forma repentina, enquanto se ouvia um choro de criança vindo da cozinha.
Hugo Silva